segunda-feira, 9 de julho de 2012

Perfume


                           Sete badaladas, no banho, de olhos fechados, passando as mãos escorregadias por todo o corpo, imaginando-as um pouco mais ásperas, como haveria de ser logo mais. Roupa, batom, colar, brincos, perfume, os pulsos, o pescoço, como se trassasse o caminho a ser percorrido pela boca.

                      As horas voavam, assim como as borboletas em seu estômago, a campainha toca, dois beijinhos no rosto, Vamos? Vamos. Veio o garçom, veio a bebida, os beijos também vieram, a mão que havia imaginado estava ali, mas faltava algo, não sabia dizer o que era, mas sabia que era.

                           A volta para casa, mais beijos, a despedida, a entrada no prédio, o porteiro, Boa noite, Boa noite, Desculpe a liberdade, está cheirosa, algo não faltava mais, Quer subir tomar algo? Mãos ainda mais ásperas, boca no caminho, cheiro no pescoço, forte, quente, cheio de calafrios que só a faziam se entregar ainda mais. É que o perfume denuncia o espírito.

domingo, 3 de junho de 2012

Trinta e três músicas


 Com o ranger do gancho na parede, a cada vai e vem naquela rede, na fazenda, debaixo daquelas lágrimas que eu céu enviava. à flor da pele, pensando em seu estranho amor.

Ela ficara ali, marcada feito tatuagematé o fim. Aquela carta em suas mãos, com todos os seus quereres era apenas uma de tantas provas de carinho que já haviam passado das mãos dela para as suas, das suas para as dela, nas duas juntas, coladas, como se não quisessem se soltar jamais. E não queriam.

saudade espremia todos os seus sonhos, da juventude transviada que dividiriam, do guri que um dia haveriam de ter, das manhãs em que acordaria debaixo dos seus caracóis, debaixo daquela mesma chuva que ouvia junto ao ranger da rede. Os desvaneios, seu mundo rompido, seus navios queimados, seu coração que ela guardou e não lhe devolveu mais, das valsas que ficava ensaiando em frente ao espelho para nunca chamá-la para dançar, das vezes em que lhe acordava com um cochicho desafinado ao pé do ouvido cantarolando aquela música que levava o seu nome.

Era como se tudo fossem dragões, a solidão lhe apertava, de noite na cama não pregava os olhos, a xingava, a odiava, resmungava maldições e com isso reinventava o amor em seu coração vagabundo todas as noites.

Que maravilha seria se a roda resolvesse voltar, se o sinal fosse aberto novamente, pedia piedade e sabia que algumas coisas os olhos não podem ver. Tinha uma só certeza: iria levando, levando, e não se afobaria não, que nada é para já.